quinta-feira, 9 de julho de 2015

família


Há um ano atrás, o meu pai deixou de me falar.
Durante muito tempo achei que não havia problema nenhum, que poderia muito bem viver assim e que tal não me afetaria. Estava enganada. Com o passar do tempo não se tornou mais fácil falar no assunto, nem se tornou menos árduo lidar com esta realidade diariamente. Com o passar do tempo, a ferida agravou em vez de cicatrizar e a dor apenas aumentou. Disse muitas vezes a mim própria que o problema não era meu, que eu não tinha culpa, mas não pude evitar aquelas inúmeras alturas em que só queria desaparecer por saber que a razão de tudo era eu. Tentei convencer-me muitas vezes que ia ficar tudo bem, sabendo sempre que era só mais uma mentira que contava a mim própria. Tentei parecer indiferente sempre que falava disto com os poucos a quem confiei este sufoco, mas bem cá dentro, eu sabia que era uma questão de tempo até que as lágrimas brotassem, até que a dor fosse demasiado grande para suportar. 
Passou um ano. E todos os dias eu disse a mim mesma que estava mais perto da minha liberdade, sabendo, ao mesmo tempo, que a minha liberdade diminuía a cada momento que passava. Foi tão difícil, sabem? Todos os dias chegava a casa e rezava para não ter de me cruzar com ele, para não ter de ver a maneira como ele me olhava com desprezo, para não ser obrigada a sentir-me assim. Porque é praticamente inpossível olharmo-nos com bons olhos quando nem os nossos pais conseguem gostar de nós, sabem? É difícil acreditar que somos boas pessoas, que valemos alguma coisa, quando chegamos a casa e não há amor. Quando a última coisa que queremos é ir para casa, porque sabemos que vai doer. E então eu obriguei-me a aguentar, a respirar fundo e a aguentar. Como quando fazemos uma competição para ver quem aguenta mais tempo sem respirar debaixo de água. Aguentamos. Só mais um segundo. Só mais um pouco. Até que a outra pessoa ceda, porque sabemos que ela o fará. Só que esta é uma competição sem adversário. Sou só eu, a prender a respiração, sabendo perfeitamente que em algum momento terei de vir à superfície, mas desejando que os meus pulmões se convertam em brânquias para tornar tudo mais fácil de suportar. Com a perfeita consciência de que isso nunca acontecerá. 
E no meio de tudo isto, nasceu em mim uma determinação para o futuro. Aquilo a que me tenho agarrado com afinco. A possibilidade de criar uma família minha, sem a sombra do meu pai a escurecer essa possibilidade de amor. 
Nunca quis ter filhos por aí além, nem nunca pensei muito nisso. Mas hoje sei que só tenho duas opções: ou nunca começar uma família; ou ter uma que seja digna desse nome. Porque para meio termo já basta aquilo que tenho agora. E não quero nunca que filhos meus se venham a sentir como eu me tenho sentido. 

16 comentários:

  1. Não consigo sequer imaginar o que isso é. Tenho uma boa relação com os meus pais e não consigo imaginar o quanto deve custar :/

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  2. "Porque é praticamente inpossível olharmo-nos com bons olhos quando nem os nossos pais conseguem gostar de nós, sabem? "
    Sei tão bem disto. Infelizmente a minha relação com o pai sempre foi distante, por inúmeras razões que nada tinham a ver comigo. E sempre pensei que a culpa não era minha, e achava que nunca me afectaria. Quando dei por mim estava mais afectada do que um queijo com bolor. Mas são coisas difíceis de perceber e de mudar. Afecta a nossa personalidade, a nossa maneira de ver a vida, os pormenores mais pequenos e mais importantes em nós.
    Não sei o que se passou entre vocês os dois, mas há a possibilidade de, caso tu vás esclarecer coisas com ele, as coisas mudem? Porque se houver, querida, não hesites por um segundo.
    Sei o que sentes por isso se precisares de alguma coisa, estou aqui.

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  3. Não consigo perceber o porquê... Porque é que o teu pai deixou de te falar. Porque é que um pai deixa de falar para uma filha. E como é que se consegue deixar passar um ano sabendo ele que a vossa relação não está definitivamente bem e, concluindo, tu também não. Espero que um dia ponham os problemas de parte e se consigam perdoar :/ é triste realmente. Desejo-te muita força para que continues a respirar e que consigas sobreviver a este aperto.

    um beijo enorme para ti

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  4. Minha querida, aquilo que tu passas com teu pai passo eu com a minha mãe. A diferença é que tu convives com o teu pai. Eu não convivo com a minha mãe há anos. Não podes deixar de gostar de ti! Nunca! E se há coisas que não se devem questionar essa é uma delas. Talvez por egoísmo ou mesmo para não te destruir a ti própria. Desejares isso para ti já é meio caminho andado para conseguires ultrapassar isso. Tenta ser e fazer melhor que ele para lhe mostrares que na realidade tu nunca precisaste dele e quando precisavas ele não estava lá.
    Força, coragem e determinação. Mil beijinhos.

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  5. r: espero que te divirtas por lá :)

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  6. Às vezes as experiências que temos enquanto filhos fazem-nos compreender que os pais afinal também erram e ter plena consciência daquilo que jamais seremos enquanto pais. Força querida! Qualquer coisa estou por cá :)

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  7. Também tenho uma relação meio conturbada com os meus pais. Nada parecido com o que aqui descreveste - e que me deixou de coração apertado - mas uma relação com mais baixos que altos. E apesar de não me poder queixar da maioria das recordações que tenho desde sempre que digo que não quero ser uma mãe como a minha foi. E tive o cuidado de escolher um homem que não será o pai que eu tive. Quero ter uma família verdadeira. Não esta que, por vezes, parece ser só a fingir.

    Força minha querida. E qualquer coisa sabes onde me encontrar ;)

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  8. Oh querida! Eu não sei bem o que isso é, mas a minha relação com o meu pai mudou bastante assim que me mudei para Aveiro. Nós praticamente deixamos de falar, mas nada vai mudar se ambos não fizerem nada por isso. Sei que não é fácil, mas vocês têm que tentar.
    Força!

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  9. Identifiquei-me contigo no que escreveste :/

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  10. Não consigo sequer imaginar o que sentes. Tenho uma boa relação com os meus pais (embora eles não tenham um com o outro) e sempre os tive por perto. Nem sempre foi um ambiente bom, porque há imensas discussões entre eles. Mas pronto... acho que não se compara ao teu sofrimento :\

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  11. Não sei o que isso é, nem consigo imaginar. A minha relação com o meu pai não é melhor do que antigamente, mas também não se compara com o que aqui descreveste. Tem os seus altos e baixos, mas penso que se deva também às nossas personalidades, o facto de sermos super parecidos. Espero que esse sofrimento passe, que as coisas se resolvam entre vocês querida...
    r: Para teres 18? Mas podes começar antes de seres maior de idade :p

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  12. Se um dia decidires iniciar uma família vais conseguir ter uma em que o nome tenha esse mesmo significado. Uma família pelos laços de amor que unem e prevalecem e não apenas porque tem esse nome mas sem real valor. Vais conseguir aguentar e és forte por isso mesmo. Beijinho e força*

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  13. Sou muito próxima dos meus pais, mas discuto bastante com a minha mãe e calhou ontem discutirmos e até agora ela não me fala. Se dois dias já me toldam o juízo, só consigo imaginar como deve ser complicado estar no teu lugar /:

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O livro da tua vida está a ser escrito agora. Aproveita a onda e lembra-te de escrever uma história feliz.