quarta-feira, 9 de setembro de 2015

e se for para sempre assim?


Ao longo dos anos fui desenvolvendo uma incapacidade para manter amizades e uma incrível falta de paciência para determinados seres humanos. Muitas vezes não tem nada a ver com os outros, mas apenas com o facto de eu esperar demais de pessoas que não são obrigadas a corresponder aos meus padrões. Com esse problema veio a falta de confiança nos outros e a falta de genuína vontade de passar tempo com pessoas que em tempos idos me eram essenciais. Aos poucos fui-me afastando até que se tornou assustadoramente fácil desapegar-me das pessoas que fizeram parte da minha vida por muito anos. E algures nesse processo, deixei também de criar novas afeições com aqueles que agora entravam na minha vida. Cada vez acho mais que é um defeito meu. Estou sempre à espera de encontrar aquele grupo de pessoas com quem me identifico a cem por cento, sem  me esforçar minimamente por ser eu a integrar-me nos grupos que já me rodeiam. Porque não os entendo, porque não penso como eles, porque o seu ideal de diversão choca com o meu. É aí que a minha paciência se esgota e eu me ausento, porque deixa de fazer sentido para mim. Porque não me faz sentido ir para a discoteca até às quatro da manhã só para beber e dançar ao som de música que não me agrada. Porque não me faz sentido ir para um bar com pessoas cujas únicas fontes de notícias e motivos de conversa são as coisas que lhes aparecem no ecrã dos telemóveis. Porque não me faz sentido sentar-me numa sala de cinema a assistir a um filme que não tem mais do que cenas de violência e uma classificação medíocre no IMDb. E acho que o facto de tudo isso não me fazer sentido é o que leva as pessoas a excluírem-me desses planos. Não que eu me importe, porque sei que recusaria muitas dessas propostas, mas leva-me a pensar, por vezes, se será para sempre assim. Se daqui a dez anos ainda serei aquela pessoa que não tem um grupo de amigos porque se recusou a fazer parte dos que encontrou pela vida fora ou simplesmente porque esse grupo idílico que procuro não existe. E não posso negar que esse é um pensamento assustador. Olhar à minha volta e aperceber-me que conheço tantas pessoas, que já travei amizade com tantas personalidades diferentes, que tenho contactos em vários sítios diferentes e que, mesmo assim, no meio de todas essas pessoas, eu não consegui ainda encontrar um grupo que me permita ser eu mesma, sem máscaras, e com um sorriso no rosto a tempo inteiro.
Perceber que toda a gente tem festas aonde ir, jantares onde marcar presença, noitadas a aproveitar, em grupo, e que eu não faço parte desses programas. Pior, perceber que mesmo que fizesse, isso não me completaria. Porque este vazio que sinto precisa de bem mais que uma quantidade absurda de álcool no organismo para desaparecer. Porque precisa de gargalhadas sentidas, precisa de conversas menos superficiais, precisa de desabafos e troca de opiniões. Precisa de debates saudáveis, de apoio incondicional e partilha de gostos. Precisa de boa-disposição com respeito e piadas que não ofendem ninguém. Precisa de pessoas verdadeiras, que não esperam que eu me ausente para fazerem de mim o alvo das críticas. E ainda não encontrei exatamente essas pessoas. Ou, se é que encontrei, são pessoas de um universo social demasiado disperso. São pessoas que consigo reunir duas ou três vezes por ano em noites que me sabem pela vida, mas que são demasiado raras. 
É nestas alturas que eu daria tudo para ser mais uma igual aos outros. Para que não me sentisse tão vazia nestes momentos. Nem tão miserável por voltar ao mesmo inferno rotineiro do secundário em breve.
E se esse inferno se prolongar pela minha vida toda?

11 comentários:

  1. Também sou um pouco assim... por isso as minhas amizades se contam pelos dedos de uma mão. Mas se não faz sentido para ti, não vale a pena forçares. Quem sabe a vida entretanto não te traz pessoas mais parecidas contigo, porque as há! Um beijinho

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  3. Sou muito assim e também tenho esse medo

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  4. Sou muito assim mas prefiro ter poucas amizades e boas do que muitas e, na realidade, não ter ninguém.
    Força querida.

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  5. Lindo seu espaço, seguido de lindas postagem, sendo uma mais curiosa que a outra... Por isso ja estou a te seguir.... amei tudo que li....
    Estendo-te o convite de fazer parte do meu espaço...
    bj no coração..

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  6. R.: Obrigada, querida, pelas tuas palavras!
    Uma grande citação que adoro e que, no meu ponto de vista, torna, por vezes, as coisas mais claras e, de certa forma, me acalma: «Ir, sobretudo em frente.» - Caio Fernando Abreu

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  7. Sofia, posso-te dizer que em vinte e três anos de vida mantive quatro amigas. Só estou com uma delas diariamente (visto que é minha colega de trabalho) e as outras vejo raramente. Mas quando vejo é como se nada tivesse mudado. Não queiras ser só mais uma. Que piada traria isso para a tua vida? Fui sempre a "renegada" até à faculdade e mesmo lá recusei muitos convites para jantares e saídas à noite. Se isso fez as pessoas afastarem-se de mim? Talvez. Se fiquei triste? Nem por isso. Assim posso deitar a cabeça na almofada todas as noites com a certeza que sou fiel a mim mesma. Mais tarde ou mais cedo irás encontrar aquele grupinho que, mesmo que seja pequeno, irá completar tudo aquilo que precisas. Posso dar-te um exemplo... Uma das minhas melhores amigas adora sair à noite e eu não. Quando ela quer sair combina com outros amigos dela. Mas para outras coisas que sabe que eu gosto (ir à praia, ir ao cinema, dar um simples passeio) sou a primeira da lista. Não precisamos fazer aquilo que não gostamos para termos amigos. Só temos que encontrar amigos que nos respeitem e gostem de nós por aquilo que somos :) Não percas a esperança!! Qualquer coisa tens-me aqui que, sabes bem, sou igual a ti (ou quase, vá!) ;)

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  8. Para ser sincera, quem realmente gosta de ti e se importa contigo não precisa de ti em jantares e festas. Quem gosta de ti, faz um esforço para estar contigo seja quando for e como for. Os "amigos" vão embora, os amigos verdadeiros ficam sempre. Não tenhas dúvidas disso :)

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  9. Eu odiei o secundário. E sempre que ouço alguém dizer "que saudades do secundário" até me dá um arrepio!
    Mas passa rápido, e o melhor está por vir!
    E de certeza que tens amizades decentes no meio dessas, as que não te procuram só para o que precisam... Não penses nisso!

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  10. Já seguia o teu blog e, acredita, que as tuas publicações deixam-me sempreeee a pensar! Como me identifico com este texto "Ao longo dos anos fui desenvolvendo uma incapacidade para manter amizades (..)", tão eu, tão os meus pensamentos.
    Obrigada pelos teus miminhos no meu blog,
    beijinhos grandes :))

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